Dia dos avós: luto pela morte de avô ou avó
Não somos farinha do mesmo saco, mas os avós são – uma espécie de farinha universal. Quanto muito, existem os do campo e os da cidade como na fábula dos dois ratos.
A verdade é que quando alguém fala dos seus avós, sabemos do que nos fala, de quem nos fala – revemos nos seus os nossos porque todos recebemos amor sensorial e puro dos nossos avós.
Ao crescer percebemos que os avós nos entregam tudo o que podem, têm e são, dão-nos sobretudo, além do que receberam. Alguns avós por vicissitudes da vida precisaram acumular funções: foram pais e/ou mães a full ou a part time – esses são ainda mais especiais.
Mas basta um avô ou uma avó: quem teve a sorte de poder desfrutar de um avô ou de uma avó, pode experienciar cuidado, respeito, aceitação e amor incondicional. Pertencimento.
Ser neto ou neta de fulano, ser neto ou neta de beltrana vale mais do que uma certificação internacional no curriculum vitae. É que ser neto ou neta dos nossos avós atesta que experienciámos sabedoria; que tivemos a oportunidade de indagar porquês e comos sem censura. Os avós não mentem ou omitem, confiam que damos conta da verdade crua: não nos querem Siddhartha (buddah).
O caminho do meio ensinam-nos os avós – as virtudes. O que sabemos sobre doação, resiliência, contemplação, superação e ternura veio dos nossos avós. Os avós sabem sempre o que é importante e o que é desimportante, o momento de calar e o momento de falar, o momento de navegar contracorrente e o momento de desistir, o momento de celebrar e o momento de chorar, o momento de apressar e o momento de abrandar, o momento de escutar e o momento de questionar. São mestres do tempo porque o sabem escasso. O presente é um presente, nunca o esquecem. Até amanhã se Deus quiser, dizem educando-nos para a sua ausência.
Ser neto ou neta dos nossos avós ensina-nos a reconhecer tesouros quando com eles nos cruzamos, confere papilas gustativas às memórias, morais às fábulas, banda sonora à vida.
Ser neto ou neta dos nossos avós atesta que provámos mundo: que fomos livres para nos mexer sem medo de sujar as roupas e esfolar os joelhos, sentir a comida nas mãos, o vento nos cabelos, cheirar as flores sem pudor, aprender a escutar as pessoas como se fossem livros cheios de estórias, contemplar paisagens ou edifícios como obras de arte, entoar músicas como embalo: ser nossos próprios berços. Sobretudo, livres para a saborear o tempo como káiros – o tempo dos deuses.
Perdê-los é regressar a chronos – o tempo dos homens. É regressar aos relógios que não param, aos olhos saciados de tão mortiços. É urgente e necessário aprendermos a construir máquinas do tempo que nos façam regressar à infância para nos vermos lamber os beiços, correr rasgando o ar como quem voa na linha da frente, saltar poças de chuva, ter olhos curiosos devoradores de mundo e cintilantes como as luzes de um baile de verão. É urgente regressar-lhes numa celebração onde rimos sincronizados como uma orquestra. É urgente lembrarmos o que nos faziam sentir. Trazê-los junto ao peito como jóia. Sabermo-nos amados, sabermo-nos o bastante, sabermo-nos amparados.
É que os avós são-nos fortalezas. Firmes nos seus valores, corajosos nas suas crenças, generosos nos gestos. Dizem a todos os momentos – nas palavras ou nas acções – que nos amam e como lhes somos importantes e especiais.
É que os avós são-nos bíblias. Um repositório de fé na humanidade. Acreditamos no bem supremo porque conhecemos os nossos avós. Minto? Existiria quiçá mais paz no mundo se nos víssemos mais como avós do que como irmãos. Concorda?
Quem eram os seus avós? Como eles inspiram a pessoa que se tornou?


