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O olhar do outro sobre o meu luto (a realidade das aldeias)

Nas aldeias diz-se muito do luto do outro. Diz-se muito, mas compreende-se e acolhe-se pouco.

Somos o país das carpideiras: fazemos culto à tristeza. De tão devotos ao pesar, transformamo-nos, após o badalar dos sinos, em fiscais de luto alheio, esperando os prantos e os elogios a quem morre.

Antigamente, as pessoas velavam-se em casa. As famílias estavam juntas, os amigos faziam-se presentes, os vizinhos apareciam com cadeiras. O corpo era cuidado e vestido com a melhor roupa, que tantas vezes tinha sido escolhida em vida para a ocasião – o fato da mortalha. Era uma roupa cuidada, lavada e engomada a cada mudança de estação.

A morte era mais próxima, a perda mais íntima. Mas ainda assim embrulhada no julgamento social: impunha-se o esvaziar dos cântaros e dos elementos decorativos, retiravam-se os enchidos da chaminé e os relógios. Despia-se a casa como se despia a alma.

Hoje, morre-se mais no hospital e os rituais fúnebres são mais breves e personalizados. Mas a dor da família enlutada ainda é alvo de julgamento, uniformizada. A família continua a ser julgada pelas suas manifestações de pesar colectivo e individual. A ela não lhe é permita qualquer expressão exterior de alegria. É julgada na expressão da sua angústia e no seu ajustamento a uma vida sem a pessoa amada falecida. Os vizinhos tanto lhes entregam sopa como maçãs.

Vizinho vizinho meu, existe alguém mais enlutado do que eu?

Se um enlutado não chora, não sente. Se um enlutado ri, ofende. Se um enlutado não abraça as vestes escuras, desconsidera. Se ousa as coloridas, desrespeita. Se um enlutado se expressa cantando, tocando, parece estar em festa. Se um enlutado celebra um evento especial, já esqueceu. Se começa um novo relacionamento, infringe leis, é imoral. E jamais, em tempo algum, se caiem as casas diante de corações negros!

Diz-se que é de bom tom deixar de frequentar a taberna e o café; suspender ou adiar todos os festejos: aniversários, casamentos, matanças, formaturas. As crianças, as mulheres e os homens vestirem preto – se pai dezoito meses; e filho dois anos, se irmão um ano, se avós oito meses, se tios três meses.

Ao homem caberá não cortar a barba pelo menos durante um mês e usar um lenço amarrado à cabeça por debaixo do boné ou do chapéu. À mulher tapar o rosto, cobrir a cabeça com um lenço, trazer um xaile nas costas. Nesse aprumo irá isolar-se, tornar-se invisível, bicho-da-seda enrolada num casulo de dor.

Obedecer a uma única norma de expressão do luto é castrador. Todo o luto é um luto, tal como todo café é um café.

Existe café curto, longo, em chávena escaldada, em chávena fria, bica, sem princípio, pingado, com cheirinho, abatanado, meia de leite, duplo, italiana, carioca, galão, garoto, descafeinado, com pedras de gelo, com açúcar, sem açúcar.

Se um café pode assumir tantas derivações, fará um luto…