I
Quando nos morre alguém no verão alguns de nós iremos cancelar as férias e iniciar imediatamente o maior inverno das nossas almas.
Outros de nós, agradecerão saírem de um lugar encharcado de memórias e rumarem a um lugar sem perguntas de conhecidos, onde podemos em família apoiar-nos, recordar dias felizes, chorar sem testemunhas, ficar juntos.
Mas não sabemos o que esperar do verão seguinte – é como se o sol perdesse volts.
II
Quando nos morre alguém numa estação anterior às vezes não chegamos ao verão seguinte, continuamos inverno.
Quiçá porque ainda não aprendemos a misturar os tempos felizes e infelizes na agenda.
Quiçá porque o nosso luto adoeceu e adoecemos junto. Esquecendo de valores e pequenos prazeres.
Quiçá porque sentimos que não devemos ousar saborear o verão – por medo de desrespeito ou julgamento. (Até quando?)
Quiçá porque não temos escolha – a morte transforma muitas cigarras em formigas. (Sinto muito).
III
Quando estamos de férias e nos morre alguém maldizemos da solidão de estar onde não sabem quem somos, quem fomos. Queremos desesperadamente a nossa família e amigos: é urgente chegar-lhes. Cair-lhes no colo. Saber-nos em casa. Trazer o nosso morto para onde o possam chorar connosco e jurar por um tempo que não arredamos mais pé de perto.
IV
Onda vem, onda vai. Longa, curta. Revolta, mansa. A maré ora vai cheia, ora vai vazia. O luto projecta-se no mar: oscila. Tem avanços e recuos como as ondas: segue duas direcções. O mar estará mais picado ou mais brando. A praia bandeira vermelha, amarela ou verde. Às vezes, as duas cores num mesmo dia. Permitamo-nos salgar as feridas, mesclar as nossas lágrimas com as do mar. Reaprender a paz dos corpos lambidos pelo sol. Lembremos: o mar revela o movimento do luto. São dois: o movimento de reconstrução da nossa vida no mundo após a morte de quem amamos e o movimento de contactar com a vivência multidimensional da perda.
O luto é dual, o mundo também. Coisas más acontecem e coisas boas também. Em simultâneo, o tempo todo por todo o tempo que é nosso. Temos de balançar: rir e chorar – “e” não “ou”.


