No segundo dia de novembro, um costume católico, incentiva as pessoas a reconectarem-se com os seus mortos. Assim, muitas pessoas visitam os seus mortos na sua última morada. Prestam-lhes homenagem através de flores e zelam por eles com velas e orações.
É um dia bem-vindo para muitos. A verdade é que num mundo onde a morte é tabu e o luto se quer privado, faz-se necessário visualizar que a morte bate à porta de todas as casas; e reencontrar testemunhas desse amor que vivemos com a pessoa que nos morreu, por entre os conhecidos que sempre povoam o cemitério nesse dia. A comunhão conforta, permite partilhar lembranças e revisitar afectos.
Mas para outros, este dia atravessa-os como um punhal ao trazer a lembrança da perda a negrito e sublinhado. As memórias e os sentimentos jorram tão intensamente que ameaçam engoli-los. A saudade instala-se com a força da sombra que faz os corpos tiritar de frio em pleno tempo ameno.
Esquecemos de lembrar a nós mesmos e aos que nos são queridos que as tradições na morte precisam de servir quem as vive e não os mortos.
Não devemos forçar-nos a participar naquilo que nos dilacera. Se o Dia de Finados tradicional parece demais do que o que intui que consegue lidar: deve preservar-se. Não ligue a tevê por esses dias nos noticiários, não leia o jornal, mantenha-se longe de cemitérios, igrejas e floristas.
Esteja com pessoas que ama, fique em silêncio, vá a lugares que lhe proporcionem paz, mime-se com a sua comida conforto, faça uma oração, evoque as melhores lembranças que viveram juntos, crie um ritual de conexão – veja fotografias, acenda uma vela, leia um poema ou ouça uma música de que a sua pessoa gostava. Conforte-se. Conecte-se com a vida, deixe a morte para depois.
A raposa ao despedir-se do principezinho lembrou-o de que ele é responsável por tudo o que cativa, também nós. Somos responsáveis pelos nossos vivos e pelos nossos mortos. Recorde-os, mantenha-se ligado a eles, mas do seu jeito, do seu jeitinho. Combinado?
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