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Na Psicologia do Luto existe um conceito chamado “mundo presumido” introduzido por um estudioso do fenómeno do Luto – Colin Murray Parkes.

Segundo Parkes, o mundo presumido diz respeito ao mundo que conquistamos e que conhecemos, ao que sabemos ou pensamos saber, à nossa interpretação do passado e à nossa visão de futuro.

Diante da morte de uma pessoa amada este mundo dissolve-se, é perdido, estilhaçado. Precisaremos reprocessar todas os saberes, percepções e crenças até formarmos um novo mundo presumido, que, adivinhem: cairá por inteiro perante uma nova perda.

Reconstruir os nossos pessoais mundos, é um trabalho de formiguinha que se prolongará por vários verões a fim de podermos sobreviver aos invernos.

O primeiro passo desta reconstrução é quase sempre, reajustar rotinas antigas e criar novas rotinas. Quanto mais a pessoa amada estava presente nos nossos dias, mais desafiante irá ser estabelecer a nova rotina.

É olhar o relógio e lembrar do telefonema que sempre trocávamos, é não passar lá por casa depois do trabalho com os meninos. É chegar a casa e encontrar a casa mais silenciosa, lembrar de não colocar um prato na mesa, cozinhar em tentativa e erro até acertar na dose de arroz que anteriormente já fazíamos a olho. É não saber o que fazer aos fins de semana, agora que não há quem visitar. É irmos a lugares onde não íamos e deixarmos de ir a outros onde muito íamos.

Os cuidadores têm um desafio acrescido: a sua vida orientava-se ao redor da pessoa que perderam. No início há uma imobilidade natural. O corpo habituado às rotinas antigas medidas em relógio suíço não abranda – tem alarme para acordar, higiene, refeições, medicamentos. Tem um sono leve, atento a qualquer ruído, continua a zelar por quem já não precisa zelar. Demora tempo a abrandar, a permitir-se descansar. Os cuidadores vão precisar criar uma nova vida para si mesmos. Todas as rotinas serão novas.

De novo: reconstruir os nossos pessoais mundos, é um trabalho de formiguinha que se prolongará por vários verões a fim de podermos sobreviver aos invernos.

Como diz Fernando Pessoa na voz de Alberto Caeiro:

Quando vier a primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

… para quem fica o poema, se me permitem a adaptação, é outro e o mesmo:

Quando vier a primavera,
Se eu estiver enlutado,
As flores exigirão ser regadas da mesma maneira
E as árvores não serão menos podadas do que na primavera passada.
A realidade precisa de mim.

A vida exigirá que nos ajustemos. Façamos o nosso melhor no tempo que ela nos exige e outro tanto por conta própria no nosso tempo porque nem tudo ela exigirá. Lembrando: muito do que ela exigirá dirá sobre pouco do nosso bem-estar, mas muito do que ela não exigirá será importante para o nosso bem-estar.

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