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Ninguém deixa de ter mãe porque a sua mãe morreu.

Ninguém deixa de ser filha porque a sua mãe morreu.

Ninguém deixar de ser mãe porque a sua filha morreu.

Ninguém deixa de ter filha porque a sua filha morreu.

É-se sempre filha, é-se sempre mãe ainda que uma das protagonistas dessa relação morra.

Morre o corpo e com ele a corporalidade dos afectos.

Morre o colo, o abraço, o beijo. Morre a voz, o olho no olho.

Nunca a relação. A relação continua após a morte.

Não é sobre acreditar em céus e reencontros. (Pode ser também, mas não é sobre isso que vos escrevo. Acreditar no que vem depois fica ao encargo de cada um). É sobre o conceito de laços contínuos.

Em vida, longe das nossas pessoas amadas, nunca duvidámos da voz delas que mora dentro de nós “a minha mãe dir-me-ia para”, “a minha mãe estaria orgulhosa”. Nunca questionámos que as conhecíamos melhor ao escutar estórias sobre elas por outros, ou ao crescermos revisitarmos as que partilharam connosco com outro olhar, nunca desacreditámos que nos aproximávamos delas quando líamos os seus autores predilectos, quando contávamos estórias estimadas que vivemos com as nossas mães a amigos ou quando aleatoriamente as reconhecíamos no que observávamos “isto é a cara da minha mãe”.

Contudo, na morte, desconsideramos esses movimentos. Contestamos essa relação. Vacilamos.

A verdade é que os nossos vivos moram em nós e fora de nós, já os nossos mortos moram apenas dentro de nós e dos outros onde fizeram morada.

Temos acesso à relação que com eles construímos o tempo inteiro. Ela não vai a lugar nenhum. O amor não evapora, os ensinamentos não são soltos ao vento, os diálogos continuam ainda que experienciados de forma distinta.

Vida fora vamos mudando, os nossos mortos também, a relação compreende e assimila essas mudanças. Evolui. Percebê-lo, perceber que a relação continua após a morte, reduz o desamparo. Devolve-nos segurança.

Também se materna na morte. Também se é maternada em morte. Absorva. Permita-se reconhecê-lo.