Estar de luto pela morte da mãe
Perder uma mãe quase nunca é uma perda isolada.
Uma mãe é como uma casa, diz-nos Aurore Petit, com muita franqueza, num livro de capa amarela garrida. E se em vida as percebemos abrigo, esconderijo, música ambiente; na morte descobrimo-las cimento, calendário, aroma de lar.
Perdemos as nossas mães enquanto referências de cuidado, sim.
Mas, não é raro, perdermos também a união familiar. É como se na ausência da pessoa que organizava as celebrações e punha compressas frias sobre os conflitos, a família se desintegrasse, deixando de existir como rede de apoio. McGoldrick, uma investigadora do Luto, sublinha que este cenário acontece mais quando as mães são também o último progenitor a morrer e já existem fragilidades nos laços familiares. É regra, mas existem excepções – as famílias que tomam para si essa responsabilidade de estreitar os elos, de a recordar perpetuando as tradições.
Pode perder-se mais ou menos na morte de uma mãe, mas perde-se sempre e perde-se muito.
Não é estranho o sentimento de desamparo e existir adoecimento no luto. É que as mães acumulam muitos significados: são amigas, confidentes, companheiras, braço direto. Perdemos sempre muito, facto. É difícil expressar o quanto. Sobretudo: a quem?
Alguém me disse um dia que as princesas dos contos de fada não têm mãe. E que é talvez por isso que não conhecemos uma só que não se saiba ousada. Se as princesas tivessem mães, diziam-me, não teriam partido em aventuras perigosas porque as mães as impediriam ao querê-las a salvo, protegidas. Talvez sim, talvez não. E dos príncipes órfãos o que se diz? Nunca ouvi.
Como é acordar num mundo sem mãe? Num mundo onde a tristeza, os sonhos e as alegrias não poderão ser mais partilhados? Onde não se escuta mais um “amo-te” ou um “levas guarda-chuva?”.
Como conviver com a saudade? A resposta será diferente para cada um de nós, sei-o. No entanto, um dado parece certo: a evidência científica revela que após a morte existe um amadurecimento pessoal significativo nos filhos. Útil, mas não é lá grande consolo.
Importa sim que, na ausência da sua mãe a mantenha viva na sua história. Falando dela, contando as vossas melhores estórias. Cuidando de si com amorosidade e esmero de mãe. Celebrando-a deixando-se inspirar pela mulher que ela era. Extraindo da sua vida alguns dos ensinamentos e lembrando os aforismos que ela parecia ter para cada ocasião. Sobretudo, querida filha, continuando a viver. As nossas mães deram-nos à luz, não à escuridão. Honre a sua vida, querido filho, honrando a sua primeira pátria: a barriga da sua mãe.


