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Demasiadas vezes incorremos no desejo de sanar o sofrimento do outro, de facilitar-lhe pausas, uma espécie de mini férias da vivência de luto. Amiúde, o natal – essa época cheia de luzes e brilhos, pitéus e presentes – surge como um pretexto para essa nossa vontade. 

A intenção, na teoria, é boa, mas inocente. A intenção, na prática, é cruel, e injusta para os dois personagens. Para com o personagem que enluta e se sente invalidado e desrespeitado no seu pesar e para com o personagem amigo que sem nem perceber censura e agrava a dor numa tentativa falhada de a aliviar.

O luto é tantas vezes o elefante na sala: gigante, colossal, monstruoso. E ao redor da mesa todos combinam de não o ver, excepto ela. Ela, a pessoa enlutada. Sozinha entre uma multidão, sentada frente a frente com o elefante, olhando-o nos olhos. Triste, revoltada, saudosa. E todos fingindo cegueira. A dada altura, questiona-se se também ela é invisível. Talvez o seja. Ali, sente que o é. 

O natal é muitas coisas, mas não é consensual. Há quem o ache doce, há quem o experiencie amargo. Afinal, o natal é sobre família e até onde sei famílias são feitas de gente viva e de gente morta. O natal é, por isso, ambivalente, agridoce, um paradoxo quiçá. 

Estou crente que o luto no natal é um bocadinho como o sabor dos morangos: varia conforme se apanham mais sol ou mais chuva. Não saberei até provar o natal do ano, se sentirei mais a presença ou a ausência dos meus mortos. Se sentirei o peito quente ou um desamparo. Lembrando: enlutados somos todos. Alguns de nós só o são de novo de fresco, alguns de nós só o têm ainda, ao luto, em carne viva. 

Para perceber do meu natal, preciso escutar-me. Para entender do natal do outro, preciso perguntar-lho. Principalmente, preciso de não fazer da perda tabu. Ela sentar-se-á à mesa. A pessoa que morreu, o luto e a pessoa enlutada.

Vão ser dias imprevisíveis. Apesar disso, o que for possível antecipar, antecipamos para existir uma sensação mínima de controlo sobre esses dias. Como anfitriã(o) posso planear alguns programas de entretenimento mais calmos como jogos de tabuleiro tranquilos, que permitam que alguém fique de fora, por exemplo, numa postura menos activa ou em filmes leves para assistirem. Mas há ouros detalhes que seria interessante decidir junto. 

Como a pessoa acredita que se sentiria melhor na consoada daquele ano? Há alguma comida com memória afectiva que faça sentido constar ou não constar no menu? Onde prefere passar a consoada e o dia de natal? Quer ficar a noite ou só o jantar? Como se está a sentir relativamente aos presentes e às tradições? Gostaria de homenagear de alguma forma a pessoa amada que lhe morreu? 

É significativo nos dias de natal acolher as emoções e naturalizá-las, dar o espaço e o tempo necessários à pessoa enlutada, aceitar que existirão diferentes momentos com diferentes humores, respeitar a vivência do outro, ter disponibilidade para escutar e confortar, compreender que é possível não ter muito apetite, vontade de falar ou energia.

É recomendável que a pessoa em luto, seja livre para passar o natal como lho for possível experienciá-lo. E é ambicionável que sejamos seus aliados nesse tumulto. 

Ninguém estraga o natal de ninguém, se partirmos do princípio que o natal é o que precisa de ser. O natal só se estraga quando subvertemos os valores de amizade, família. Então estejamos juntos. Íntimos, próximos, solidários.

Votos de um natal possível! Acolhedor. Acolhe-dor.