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Basta um momento, um telefonema e o mundo vira de cabeça para baixo.

Era para estares aqui e já não estás. Não há lógica que permita a compreensão.

Há apenas um sentimento de choque, de irrealidade, que perdurará por muito tempo.

Congelamos, imobilizamos, ficamos dormentes, apáticos. Sentimos a notícia no corpo.

Uma queda vertiginosa. Uma rigidez e uma fraqueza simultâneas. O nó na garganta.

Não tínhamos como prever, como nos prepararmos.

Não tínhamos como prever, como nos prepararmos.

Não tínhamos como prever, como nos prepararmos.

Essa constatação fica connosco e reverbera de formas diferentes em cada um.

Numa morte inesperada existe a perda da pessoa que amámos e o luto pela sua perda na sequência. E em acrescento, existe o rasgar do nosso script pela vida – como se a vida, essa entidade, não fosse mais um personagem confiável. São duas dores concorrentes. Corpulentas. O assombro do expoente.

Não tínhamos como prever, como nos prepararmos.

Depois de uma morte inesperada podemos desenvolver um medo gigante de voltar a perder alguém querido ou de morrer – o mundo parece perigoso demais, aleatório demais.

Não tínhamos como prever, como nos prepararmos.

A falta de previsibilidade pode ser tão assustadora que nos faça perder o sentido da vida espelhado nas nossas rotinas – qual o propósito de tudo? Para quê traçar planos, sonhar a um, cinco ou dez anos?

Não tínhamos como prever, como nos prepararmos.

Para outros trará uma urgência de viver, viver muito, rápido, bem. Pensar e executar. Buscar o prazer, as pessoas e o lúdico acima de todas as coisas. “Só se vive uma vez”.

Uma morte inesperada aterra em cada um sem aviso e como um meteoro atingirá o nosso solo de formas que só mais tarde iremos compreender. Não voltamos a ser a mesma pessoa – essa morte será sempre um divisor de águas.

Importa, durante a jornada, entendermos a raiz da emoção que ela nos provocou para que nos movamos não na direcção dos nossos medos, mas daquilo que é valioso para nós, para não chegarmos a lugares onde não nos esperamos.